Ransomware é um tipo de software malicioso que sequestra dados e sistemas, criptografando tudo o que encontra e exigindo pagamento, geralmente em criptomoedas, para devolver o acesso.
O que era visto há alguns anos como uma ameaça distante, restrita a grandes corporações internacionais ou a notícias de tecnologia, chegou ao cotidiano das empresas brasileiras com força e consequências severas. Agora, gestores acordam para descobrir que nenhum sistema funciona, arquivos exibem extensões desconhecidas e uma mensagem de resgate ocupa a tela, com prazo contado para pagamento. É tarde demais para agir, e o prejuízo já começou.
Por isso, entender o que é ransomware, como ele opera e o que fazer para preveni-lo é, hoje, uma responsabilidade de qualquer liderança empresarial.
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O termo vem da combinação de ransom, palavra inglesa para resgate, com malware, a denominação genérica para softwares maliciosos. Na prática, o ransomware é um programa projetado para infiltrar sistemas, criptografar arquivos e tornar a operação completamente inacessível até que a vítima pague pelo código de desbloqueio, sem nenhuma garantia real de que receberá o acesso de volta.
Além disso, o processo ocorre em etapas bem definidas. Primeiro, o atacante obtém acesso ao ambiente, frequentemente por meio de um e-mail de phishing, uma credencial comprometida ou uma vulnerabilidade não corrigida em algum sistema exposto à internet.
Uma vez dentro, o malware se move lateralmente pela rede, mapeando servidores, backups e sistemas críticos antes de ativar a criptografia. Esse período de dormência silenciosa pode durar dias ou semanas, tornando a detecção especialmente difícil.
Assim, ativada a criptografia, a operação paralisa. Documentos, bancos de dados, e-mails, arquivos de ERP, registros de clientes, tudo fica inacessível. A mensagem de resgate aparece com um valor, um prazo e, crescentemente, uma segunda ameaça: se o pagamento não for feito, os dados roubados serão publicados ou vendidos.
E algo alarmante é que esse modelo, chamado de extorsão dupla, virou padrão entre os grupos criminosos mais organizados, amplificando o impacto financeiro e reputacional do ataque.
O Brasil não somente é um alvo frequente de ransomware, como é um dos alvos preferidos no mundo. Os dados mais recentes revelam um cenário alarmante, especialmente para quem ainda acredita que antivírus básico e senhas simples são suficientes para proteger uma operação.
Segundo o relatório FortiGuard Labs da Fortinet, o Brasil registrou 314,8 bilhões de atividades maliciosas no primeiro semestre de 2025, concentrando 84% de todos os ataques cibernéticos detectados na América Latina e no Canadá no período.
Entre essas atividades, foram identificados 28,1 mil incidentes de ransomware, com 98%das ações concentradas na fase de impacto, ou seja, ataques rápidos, direcionados e voltados à interrupção imediata da operação.
Já o relatório de Ciberameaças da Acronis, referente ao segundo semestre de 2025, posicionou o Brasil entre os três países com maior volume de detecções de ransomware no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. O levantamento ainda aponta crescimento de20% nos ataques por usuário em relação ao ano anterior e expansão significativa das ameaças em plataformas de colaboração, como Teams e SharePoint.
Em fevereiro de 2025, o país registrou um recorde histórico: mais de 960 ataques de ransomware em um único mês, segundo relatório da SonicWall, número que evidencia o ritmo acelerado com que grupos criminosos têm intensificado as operações contra empresas brasileiras.

Uma das percepções mais perigosas que gestores carregam é a ideia de que ataques cibernéticos exigem hackers altamente capacitados explorando falhas obscuras de sistemas.
Porém, a realidade é mais perturbadora: a maioria das invasões bem-sucedidas começa por caminhos simples, humanos e previsíveis.
Vamos conhece-los?
E-mails fraudulentos continuam sendo a porta de entrada mais utilizada. Por exemplo, um colaborador recebe uma mensagem aparentemente legítima de um banco, fornecedor ou até do próprio RH da empresa, clica no link ou abre o anexo e, sem perceber, instala o malware no ambiente corporativo.
O phishing evoluiu significativamente, com criminosos usando inteligência artificial para criar mensagens altamente personalizadas e convincentes, aumentando a taxa de sucesso das campanhas.
Senhas fracas, reutilizadas ou obtidas em vazamentos anteriores são exploradas para acessar VPNs, painéis de administração e ferramentas de acesso remoto como RDP.
Uma vez com credenciais válidas em mãos, o atacante opera como um usuário legítimo dentro da rede, dificultando a detecção e ganhando tempo para mapear o ambiente antes de acionar a criptografia.
Sistemas sem atualização, softwares legados e equipamentos de rede com firmware desatualizado representam brechas conhecidas e documentadas que grupos criminosos exploram sistematicamente.
Segundo o levantamento da ISH Tecnologia, a exploração de vulnerabilidades cresceu8,1% em 2025, com mais de 40 mil falhas publicadas ao longo do ano, cada uma representando uma janela de oportunidade para invasores.
Quando uma empresa é atingida por ransomware, o impacto vai muito além dos sistemas travados.
Isso porque as consequências se ramificam por áreas financeiras, operacionais, jurídicas e reputacionais, frequentemente deixando marcas que duram muito mais do que o tempo de recuperação técnica.
Veja:
· Paralisação operacional: sistemas de ERP, CRM, e-mail e comunicação ficam inacessíveis, interrompendo vendas, atendimento, logística e produção. Cada hora de inatividade tem um custo direto e mensurável.
· Custo do resgate e da recuperação: a demanda média global de resgate atingiu 2,73 milhões de dólares em 2025, segundo dados da Gridinsoft. Mas mesmo empresas que optam por não pagar enfrentam custos elevados de resposta a incidentes, forense digital, reconstrução de sistemas e treinamentos emergenciais.
· Exposição e vazamento de dados: com a extorsão dupla consolidada como padrão, os criminosos ameaçam publicar dados sensíveis de clientes, contratos, informações financeiras e estratégicas caso o resgate não seja pago, criando um passivo jurídico e reputacional imediato.
· Sanções da LGPD: um ataque que resulte em vazamento de dados pessoais ativa as obrigações de notificação da Lei Geral de Proteção de Dados, podendo gerar multas de até 2% do faturamento anual, limitadas a R$ 50 milhões por infração, além de investigações pela ANPD.
· Danos à reputação: clientes, parceiros e fornecedores perdem confiança em uma empresa que demonstrou vulnerabilidade. Em setores regulados como saúde e financeiro, esse dano pode ser ainda mais estrutural.

Imagine um escritório jurídico de médio porte que, confiante no antivírus instalado em cada máquina e no backup diário agendado para um servidor local, acredita estar protegido.
Em uma segunda-feira, ao ligar os computadores, todos os arquivos estão criptografados, incluindo o servidor de backup, que estava conectado à mesma rede e foi comprometido junto com os demais sistemas. O antivírus não detectou o ransomware porque a variante era nova, ainda não catalogada nas bases de assinaturas.
O backup existia, mas estava inacessível. Dessa maneira, a operação parou por doze dias.
Esse cenário é representativo de um equívoco ainda muito comum: confundir a presença de ferramentas de segurança básicas com a existência de uma postura de segurança robusta.
Antivírus tradicionais trabalham com base em assinaturas conhecidas, tornando-se ineficazes diante de variantes novas ou personalizadas de ransomware.
Além disso, backups armazenados em dispositivos conectados à rede são comprometidos junto com o ambiente no momento do ataque.
A resposta adequada a esse risco passa por duas frentes complementares. A primeira é o backup imutável, armazenado em ambiente isolado, offline ou em nuvem com proteção contra modificação, garantindo que haja sempre uma cópia íntegra dos dados que não possa ser alcançada pelo ransomware.
A segunda é o Disaster Recovery, um plano estruturado que define não apenas onde os dados estão, mas como e em quanto tempo a operação será restabelecida após um incidente, com RTOs e RPOs previamente definidos e testados.
Dessa maneira, uma segurança real exige uma abordagem em camadas: monitoramento contínuo do ambiente, gestão de identidades e acessos, segmentação de rede, detecção e resposta a ameaças em tempo real (EDR/XDR) e uma política clara de governança que envolva toda a organização, não apenas a equipe de TI.
A pergunta que toda liderança deveria se fazer não é se sua empresa pode ser alvo de ransomware, os dados mostram que o Brasil já está entre os três países mais atacados do mundo. A pergunta certa é se sua operação está preparada para resistir, detectar e se recuperar de um ataque antes que ele cause dano irreversível.
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